Conhecimento é o recurso mais valioso e o único verdadeiramente renovável do mundo atual – Thomas L. Friedman

Recebi um link do meu amigo Galdino Iague Neto sobre esse artigo e achei super interessante em compartilhar, pois sempre fui uma defensora da busca do conhecimento, mas principalmente da boa utilização dele.

Esse artigo foi publicado na Uol em 13/03/2012 e foi escrito por Thomas L. Friedman, colunista de assuntos internacionais do New York Times desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo. Vamos lá:

De vez em quando alguém me pergunta: “Qual é o seu país favorito, tirando os Estados Unidos?”.

Eu sempre respondo: Taiwan. “Taiwan? Por que Taiwan?”, as pessoas questionam.

Muito simples. Porque Taiwan é uma ilha pedregosa situada em um mar varrido por tufões, e que não possui recursos naturais para sustentá-la – ela teve que importar até mesmo areia e cascalho da China para construções – e, mesmo assim, esse país é dono da quarta maior reserva financeira do mundo. E isso se deve ao fato de Taiwan ter utilizado o talento, a energia e a inteligência dos seus 23 milhões de habitantes, tanto homens quanto mulheres, em vez de escavar a terra e explorar o subsolo. Eu sempre digo aos meus amigos de Taiwan: “Vocês são o povo mais sortudo do mundo. Como foi que tiveram tanta sorte? Taiwan não tem petróleo, minério de ferro, florestas, diamantes ou ouro, e possui apenas algumas pequenas reservas de carvão mineral e gás natural. Devido a isso, o país desenvolveu o hábito e a cultura de aperfeiçoar as habilidades do seu povo, e essas habilidades acabaram se revelando o recurso mais valioso e o único verdadeiramente renovável do mundo atual. Como foi que vocês tiveram tanta sorte?”.

Pelo menos essa era a minha impressão. Mas agora há uma prova disso.

Uma equipe da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) acabou de divulgar um pequeno e fascinante estudo que mostra a correlação entre o desempenho no exame Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês) – que a cada ano avalia o nível de proficiência em matemática, ciência e leitura de alunos de 15 anos de idade de 65 países – e a renda total proveniente de recursos naturais como percentagem do produto interno bruto em cada um dos países participantes. De forma resumida, a questão é a seguinte: qual é o desempenho dos estudantes de segundo grau de um determinado país quando se leva em conta a quantidade de petróleo ou de diamantes que esse país produz?

Os resultados indicaram que há “uma relação significativamente inversa entre o dinheiro que os países obtêm com os seus recursos naturais e o conhecimento e a capacitação dos seus alunos de segundo grau”, diz Andreas Schleicher, supervisor dos exames do Pisa para a OCDE. “Esse foi o padrão global encontrado nos 65 países que participaram do último exame Pisa”. Em suma, petróleo e Pisa não se misturam (para ver os dados visite o site).

Schleicher acrescenta que, conforme diz a Bíblia, “Moisés conduziu arduamente os judeus durante 40 anos pelo deserto – apenas para levá-los para o único país do Oriente Médio que não possui petróleo. Mas Moisés pode ter, na verdade, feito a coisa certa. Atualmente Israel é uma das economias mais inovadoras, e a sua população usufrui de um padrão de vida que a maior parte dos países produtores de petróleo da região não é capaz de oferecer”.

Portanto, fique com o petróleo e me passe os livros. De acordo com Schleicher, nos últimos resultados do Pisa, Cingapura, Finlândia, Coreia do Sul, Hong Kong e Japão se destacaram por terem apresentado notas elevadas no Pisa e serem países com poucos recursos naturais, enquanto Catar e o Cazaquistão chamaram atenção por apresentarem as maiores rendas derivadas do petróleo e as notas mais baixas no Pisa.

A Arábia Saudita, Kuwait, Omã, Argélia, Bahrein, Irã e Síria apresentaram a mesma tendência em um teste similar, o Tendências em Estudos Internacionais de Matemática e Ciência (TIMSS, na sigla em inglês), enquanto que, de forma interessante, os estudantes do Líbano, da Jordânia e da Turquia – que também são países do Oriente Médio com poucos recursos naturais, se saíram melhor.

Também tiveram um desempenho ruim no Pisa os alunos de vários países ricos em recursos naturais da América Latina, como Brasil, México e Argentina. A África não foi avaliada. O Canadá, a Austrália e a Noruega, que também são países de grandes riquezas naturais, tiveram boa classificação no Pisa. Segundo Schleicher um dos principais motivos para isto é o fato de estes três países implementarem políticas no sentido de poupar e investir a arrecadação proveniente dessas reservas, em vez de simplesmente consumirem tais recursos.

Ao somarmos todas essas variáveis, os números nos dizem que se nós realmente quisermos saber qual será o desempenho de um país no século 21, não devemos nos basear nas suas reservas de petróleo nem nas suas minas de ouro, e sim na qualidade dos seus professores, no envolvimento dos pais e no entusiasmo dos alunos. “O nível de aprendizado atual na escola se constitui em um poderoso instrumento para a previsão da riqueza e dos indicadores sociais dos países no longo prazo”, explica Schleicher.

Os economistas há muito conhecem a chamada “doença holandesa”, que ocorre quando um país torna-se tão dependente da exportação de recursos naturais que o valor da sua moeda dispara e, como resultado, a sua produção industrial é destruída por uma inundação de produtos importados baratos, e as suas exportações tornam-se muito caras. O que a equipe do Pisa está revelando é uma doença similar: as sociedades que ficam viciadas nos seus recursos naturais parecem gerar pais e jovens que perdem parte dos seus instintos, hábitos e incentivos para fazer deveres de casa e aprimorar as suas habilidades.

“Por outro lado, em países que possuem poucos recursos naturais – Finlândia, Cingapura ou Japão – a educação tem grandes resultados e é valorizada, pelo menos em parte devido ao fato de a população em geral ter entendido que um país precisa basear o seu sustento nos seus conhecimentos e na sua capacitação, e que isso depende da qualidade da educação. Todos os pais e crianças nesses países sabem que a capacitação será o fator decisivo para as oportunidades na vida da criança e que nada mais poderá socorrê-las, de forma que os indivíduos constroem uma cultura inteira e um sistema educacional em torno dela”, diz Schleicher.

Ou, conforme gosta de dizer o meu amigo norte-americano de ascendência indiana K.R. Sridhar, o fundador da companhia de células de combustível Bloom Energy, situada no Vale do Silício, na Califórnia: “Quem não tem recursos naturais acabe se tornando uma fonte individual de recursos”.

É por isso que os países estrangeiros que possuem o maior número de companhias na Nasdaq são Israel, China/Hong Kong, Taiwan, Índia, Coreia do Sul e Cingapura. Nenhum deles vive dos seus recursos naturais.

Mas há também neste estudo uma mensagem importante para o mundo industrializado. Neste período econômico difícil, elevar o nosso padrão de vida atual com a transferência de dívidas financeiras ainda maiores para o futuro é uma verdadeira tentação. Na verdade, os estímulos financeiros podem ser úteis durante uma recessão prolongada, mas “a única maneira sustentável de sair desta situação é crescendo, ao proporcionarmos a uma quantidade maior de indivíduos os conhecimentos e as qualificações para que eles possam competir, colaborar e se conectar de forma a impulsionar os seus países adiante”, argumenta Schleicher.

Em suma, diz Schleicher, “o conhecimento e a capacitação tornaram-se a moeda global das economias do século 21, mas não existe nenhum banco central que imprima essa moeda. Todo mundo tem que decidir por contra própria o quanto irá imprimir”.

É verdade que é ótimo possuir petróleo, gás e diamantes; estes produtos podem comprar empregos. Mas no longo prazo eles enfraquecem a nossa sociedade, a menos que sejam utilizados para construir escolas e uma cultura de aprendizado por toda a vida. “Aquilo que o próprio indivíduo colocar por esforço próprio na sua mesa é o que vai fazer com que ele continue progredindo”, conclui Schleicher.

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