Insights sobre o filme “Soul”

Mais uma animação da Pixar e ao assistir e conversar sobre ela com minha filha de 15 anos e meu marido tive a confirmação da minha percepção: não foi feito para crianças (apesar de muita gente acreditar que animações são feitas apenas para os pequenos).

Todas as animações da Pixar trazem sempre um enredo com vários insights para os adultos além da diversão certeira para as crianças, porém Soul saiu desse caminho. Talvez seja um filme monótono e sem sentido para elas (e talvez até para alguns adultos que esperam mais ação), pois aborda alguns temas como morte, propósito, frustrações, experiências, vida. Além disso, deixa um final totalmente aberto que é outra novidade da Pixar.  Enfim, cada um pode imaginar qual o futuro de cada personagem.

Esse é um artigo mais direcionado para as pessoas que já assistiram ao filme, pois não conto a estória, apenas faço algumas contextualizações e questionamentos. Para quem não assistiu, talvez pareça sem pé e nem cabeça. E algumas pessoas podem achar que são spoilers, então quem não assistiu, é melhor não ler.

Na minha visão, Soul não aborda o que é o propósito exatamente, mas como a busca desenfreada dele faz com que as pessoas deixem de viver. Somos seres que nascemos com inúmeras possibilidades, porém em algum momento começamos a nos delimitar e isso nos cega. Criamos inúmeras crenças limitantes, preconceitos e preocupações que não nos trazem resultados positivos.

Soul significa alma, em inglês. Em latim é anima, que anima, que dá movimento ao que é vivo, sendo assim, o filme nos instiga a pensar sobre o que pode nos animar, o que pode nos movimentar que podemos chamar de propósito? E nos faz refletir sobre muitas coisas que deixamos de prestar atenção e que não precisam ser rotuladas.

Há anos estudo o tema Propósito, porém fui aprofundar sobre ele quando estruturei a metodologia de tomada de decisões. Percebi que quando se tem um Propósito, as decisões ficam mais fáceis de serem tomadas, pois se tem um grande norteador. Mas isso quer dizer que se não tenho Propósito, eu não consigo tomar decisões? Não consigo tocar minha vida?

A resposta é NÃO!

Eu digo que a falta de propósito não é desculpa para as pessoas darem para não viverem (como muitas dão). Caso não saiba qual o propósito, viva sem ele. A vida é para ser vivida e não para ser sofrida. O encontro com o propósito virá com o autoconhecimento e experiências. Enquanto não se encontra o propósito, tenha pelo menos uma meta para te motivar e fazer atividades que tragam realização.

Algumas considerações que eu faço sobre o filme:

  • A versão dublada em português fala em missão, em propósito e de repente parece que há uma contradição em algumas coisas e falas. E por que isso ocorre? As almas possuem um emblema no peito com sete espaços e só podem descer à Terra, isto é, só podem ganhar a vida se completarem esses espaços que são suas características pessoais. O último espaço é dedicado ao que eles chamam de “spark” que traduzindo seria “faísca”, mas na versão dublada traduziram para missão. E isso me chamou atenção, pois para mim não fez sentido ao ver o tipo de atividade (tirar foto, jogar basquete, jogar futebol) que as almas faziam e ganhavam o passe para a vida dizendo que aquilo seria a missão. Por isso fui assistir a versão em inglês.

Na realidade, as almas podiam viver a partir do momento que encontravam algo que a completassem, essa faísca que desperta um talento ou uma paixão. Itens que fazem parte do propósito, mas não são o propósito em si. Sendo que, no final do filme, Joe pergunta a uma das almas conselheiras qual foi o propósito da 22 para ela ganhar o passe e ela diz que não precisa de propósito. Que uma faísca não é o propósito da alma.

  • Joe Gardner acreditava que esse último espaço que as almas deveriam completar para terem o passe seria o do propósito. Isso se dá por ele ser tão obcecado com a questão de amar tocar jazz e acreditar piamente que ao se tornar um músico de sucesso teria alcançado seu propósito. E isso o deixa “míope” para enxergar que poderia haver mais coisas para serem vividas e que ele só percebe ao morrer pela segunda vez. Quando falamos em propósito abarcamos o encontro de quatro itens:
    • O que você ama?
    • Em que você é bom?
    • O que o mundo precisa?
    • Pelo que você pode ser pago?

Joe não percebe no início que “ser músico” não é seu propósito, mas sim que por meio da música poderia ajudar a despertar talentos como professor (como aconteceu com Curly e Connie) e fazer diferença na vida dessas pessoas. Seu talento musical era um dos meios para atingir algo maior e de muito mais realização. Enfim, poderia viver uma vida de muito mais realizações do que de frustrações que ele sentia por ter sido negativado em várias bandas ou oportunidades na tentativa de se tornar um músico. Foi Curly, um ex-aluno que apresentou a oportunidade de fazer parte da banda da Dorothea, uma diva do jazz, pois tinha uma admiração enorme por Joe e fala que a aula de música na escola era a única motivação dele para ir.

  • Atualmente muito se fala em fazer atividades que nos deixem em estado de flow que é um conceito desenvolvido pelo psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi que é um estado no qual a pessoa está tão envolvida em uma atividade, que se torna capaz de esquecer-se do tempo, da fome, do cansaço, do ambiente. E aqui gostaria de fazer uma consideração de uma parte no filme que é quando 22 leva Joe para um outro local onde se encontram as almas das pessoas que entram em flow e em seguida as almas perdidas que são das pessoas que estão vivas, porém estão fazendo algo sem sentido e acabam se desconectando do corpo, vivendo como zumbis.

Nesse momento, fiquei refletindo, por que será que os dois tipos de almas estão basicamente no mesmo lugar? Será que as pessoas que entram em flow, muitas vezes também não são almas perdidas por viverem muitas vezes tão obcecadas por aquilo que tanto amam que deixam de vivenciar muitas outras coisas na vida que dão tanto prazer quanto sua atividade-fim? Joe é um caso que entra nesse estado de flow e isso o faz acreditar que apenas tocando ou falando de jazz é feliz. O que não é verdade.

  • Joe só consegue entender que pode ser feliz com várias outras coisas porque 22 cai no corpo dele sem querer e experimenta coisas simples que trouxeram felicidade a ele e que nunca faria normalmente (chupar pirulito, comer pizza e rosquinha, olhar para o céu e ver folhas caindo das árvores, conversar com as pessoas sobre outros assuntos, sentir o vento da saída de ar do chão, ouvir o músico no metrô) e isso se tornam lembranças para Joe. Quantos de nós deixa de fazer e apreciar o dia a dia para apenas buscar felicidade quando encontrarmos o propósito, conseguirmos o emprego dos sonhos, fazermos aquela viagem desejada. Podemos ser felizes em vários momentos do dia, só depende do nosso olhar para o mundo. Mais simplicidade, menos complicação.
  • 22 era considerada uma alma problemática, pois já tinha passado por diversos mentores (Madre Teresa, Lincoln, Gandhi, Copérnico, Maria Antonieta, Muhammad Ali, Carl Jung, Arquimedes, George Orwell) e nenhum deles conseguiu que ela encontrasse sua “faísca”. O que 22 não percebeu é que ao conversar com cada um deles foi aumentando seu repertório de conhecimento e isso foi importante, pois ao vivenciar a vida de Joe pode utilizá-lo para conversar com as pessoas, compartilhar o que sabia e fazer as pessoas felizes. 22, na verdade, tinha medo do que encontraria se vivesse e ao experimentar o que era a vida, encontrou a sua “faísca”.

A experimentação é fundamental para sabermos o que gostamos, o que não gostamos, o que podemos fazer, o que precisamos aprender. Se não tivermos o gosto das experiências sempre faltará aquele algo que não sabemos o que é. Experimentar faz parte do nosso encontro com nosso propósito. 22 tinha medo de sofrer e por isso preferia ficar no campo da teoria e ao viver na Terra percebeu que mesmo algumas coisas assustadoras eram interessantes. Quantos estudam, leem, fazem cursos, mas na hora da prática resolvem não agir? A falta da experimentação acaba nos causando mais medo. Vamos passar por situações boas e outras nem tanto, mas isso é a vida!

  • Dez que é o barbeiro que atende Joe conta que ele gostaria de ter sido veterinário, mas a filha ficou doente e que optou por essa profissão por não precisar de diploma. Joe então pergunta se ele vai ser infeliz a vida toda e ele diz que não, que ele está muito bem. Para Dez, ser barbeiro não é só trabalho, ele diz que a cadeira dele é mágica, pois os clientes saem sorrindo, mais leves e estilosos. Esse é o exemplo de enxergar algo além. Ele não precisa falar que o propósito dele é poder fazer as pessoas felizes e mais bonitas, porém ele sabe o motivo que o faz feliz e realizado e por isso faz bem o seu trabalho e se sente realizado. Dez diz a Joe que ficou feliz em conversar com ele sobre outras coisas além do jazz e apesar dos anos de convivência, Joe nunca havia conhecido essa estória de Dez. Será que também não somos tão obcecados por algum assunto que não damos abertura para conhecer outras coisas e verdadeiramente as pessoas?
  • Em um outro momento 22 pergunta para Joe sobre Lisa e ele diz que está sem tempo para um relacionamento, então ele pergunta se vai esperar morrer pela segunda vez para falar com ela. Muitas vezes, as pessoas acreditam que estão focadas, mas estão tão obcecadas que deixam até os relacionamentos de lado. Quem são as pessoas mais importantes da sua vida e você não tem dado o devido valor?
  • Quando Joe consegue tocar no clube, ele diz para si: “Conseguiu, sua vida começa agora.” Depois de ter sido admitido na banda e elogiado, tem um sentimento de frustração quando pergunta a Dorothea como será no dia seguinte e ela diz que amanhã voltará e fará tudo de novo. Ele diz que pensou que seria diferente. Algumas pessoas acreditam que ao viver da sua paixão, nunca terão rotina, todo dia será diferente, mas não. O propósito pode-se até começar com uma paixão, mas o que é necessário é amor. A paixão passa, causa desilusão quando percebemos que aquilo não é o que pensamos. O amor fica mesmo sabendo que há coisas boas e outras não.

Dorothea conta a estória de um peixe que diz para um ancião que estava procurando um tal oceano, o ancião disse que ele estava no oceano. O peixe diz: “mas isso aqui é água, eu quero o oceano.”  Quantas vezes almejamos algo com tanta idolatria e não enxergamos que ele está mais perto do que pensamos e seguimos infelizes na busca de algo que nem sabemos o que é realmente. Complicamos a vida! Joe acreditava que a vida dele só começaria quando se tornasse um músico famoso e nesse momento percebeu que a vida já tinha começado há muito tempo.

  • Também percebemos que Joe ao se tornar mentor de 22, pensou que a ensinaria sobre propósito e no final, viu o quanto ela tinha sido importando para que ele entendesse melhor sobre o que é a vida. Uma troca enorme entre uma alma que não queria morrer e outra que não queria viver. E assim também é nossa vida, quanto mais compartilhamos o conhecimento uns com os outros, mais aprendemos.

Esses são meus insights e visão sobre o filme. Não quer dizer que seja verdadeiro, até porque o filme é uma obra aberta como nós também somos.

Você pode saber mais sobre propósito assistindo a uma live que fiz. Clique aqui para assistir.

E se quiser se aprofundar no assunto, tenho o curso “Qual o seu Propósito?”. Clique aqui para comprar.

PS.: Agradeço a Rachel Bernardes e suas filhas (Clara e Bianca) que ao assistirem ao filme tiveram vários insights e questionamentos que me ajudaram a completar esse artigo. Obrigada pelo compartilhamento de vocês!

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